Por Marcos Ribeiro - PSS
Revisão Saulo F. Santos
Laudeci, é proprietária da empresa, ProemPe - QualiAfro, uma assessoria em Recursos Humanos - especializada na valorização da Diversidade Étnica, que está desde 2002 recrutando e desenvolvendo profissionais para áreas estrtégicas.
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PSS - Qual a sua opinião sobre as escolas técnicas? Você acha que é um caminho para o negro ingressar mais facilmente no mercado de trabalho, ou ele ainda deve buscar com mais intensidade a faculdade?
Laudeci- Acho uma possibilidade. Falando de uma realidade muito `Qualiafricana`, as multinacionais contratam quem realmente tem algo mais a oferecer. Não só a identificação, o entendimento, a vontade, a meta. Não só a iniciativa, a persistência, a dinamicidade. Isso é bom, mas é melhor quando há recursos técnicos, competências técnicas, um histórico profissional junto. Se não houver essa bagagem sólida. Saindo de um curso técnico, há a entrada no mercado de trabalho melhor preparado e em áreas mais interessantes, voltadas à carreira, ao perfil profissional, já começado a se desenvolver antes, uma vez que não possuímos meios para fazer cursos paralelos à graduação. Haverá o diferencial do trabalho, e na graduação se terá desenvolvido matérias de funções que estão encorpando, dando solidez ao currículo. Isso facilita o acesso à áreas estratégicas como essa, por isso acredito.
PSS - Você é a favor das cotas?
Laudeci - Totalmente, por uma questão legal. Há uma discussão enorme sobre cotas, porque geralmente ligamos cotas ao negro; porém, a cota é um instrumento legal utilizado para várias questões, inclusive a da negritude. E, por motivos, óbvios, históricos, de barreias que o Estado impôs sobre a população negra. Acredito que é mais do que justo, mais do que legal, haver um instrumento que ao menos reduza esse impacto altamente negativo para a população negra. Há todo momento passamos por esse processo de termos algo para provar. É assim que vivemos, a todo momento precisamos buscar caminhos diferentes, formas para poder alcançar o mínimo, essa é a grande verdade.
PSS - Você teve alguma dificuldade fora do comum por ser uma empresária negra?
Laudeci - Tenho uma vantagem em relação à maioria das pessoas da minha etnia, talvez até da minha faixa etária. O apoio de minha família. Tive um apoio muito forte meus pais, que também são empreendedores. Isso já é cultural de minha família. O meu avô era um grande comerciante e a minha mãe sempre fala que vê muitos traços do meu avô em mim. E o pior problema em ser uma empresária negra é não ter riqueza acumulada e não ter acesso a recursos de financiamento. Se a gente fizer um estudo de qual a fonte de financiamento de empreendedores não-negros, você vêrá que a principal fonte de financiamento é a família, são recursos familiares que favorecem e possibilitam o desenvolvimento desse negócio. O segundo é o acesso aos financiamentos bancários, recursos financeiros privados. Não tive uma coisa nem outra. Todo o dinheiro que eu ganho, invisto em meu negócio. Sempre acreditei muito no meu negócio. O principal problema são os recursos financeiros, que afeta a `velocidade`, pois quanto menos recursos se tem, mais tempo se leva.
PSS - O aumento de gerações de empreendedores negros pode facilitar algumas situações futuramente?
Laudeci - Pode e muito! Meus pais foram empreendedores `sem noção` na verdade. Tinham a Mao de obra, trabalhavam, mas não se reconheciam como empresários, empreendedores. `Sou cabeleleira, faço cabelo, sem direção!`.(Referente à sua mãe cabeleleira).
Não pensavam na administração, porém, já tinham essa idéia que poderiam sobreviver e de que era possível ser bem sucedido sem que você seja empregado. O que já serviu pra mim, pois não tive deles orientação administrativa, qual caminho seguir. Mas, se eu quisesse fazer alguma coisa, teria o apoio deles, porque é possível, tanto quanto ser empregado! Agora, meus filhos, além do incentivo para o seu próprio negócio, terei como dizer que há um caminho, orientá-los sobre esse caminho. Falarei sobre o capital próprio. Mas na minha casa sempre tivemos muito medo de dever. A orientação era não fazer empréstimo, não dever dinheiro. O que é a orientação contrária a um negócio. Você deve trabalhar com capital de terceiros, sabendo administrar isso!
PSS - Você acha que a visão do empreendedor negro está melhorando?
Laudeci - Não, não acho. Falta o olhar corporativo, o pensar grande, pensar em crescer, pensar um negócio que se estabeleça e que ganhe realmente dinheiro. Eu sinto falta desse pensamento ousado, de não se ter medo, de se associar, de juntar. Pensar empresarialmente. Falta acreditar que se pode muito mais! Falta conhecimento de gestão e de tecnologia. Para se conseguir um retorno através do e-mail é muito difícil, pois as pessoas não retornam! Há o facebook, o twitter que utilizamos pra bater papo; mas para negócios, se você vai em uma rede que é de negócios, a população negra não está! Historicamente os negros são empreendedores, até porque esse foi o único caminho nós encontramos pra sobreviver! Nós nunca fomos empregados, mas somos empreendedores com cabeça de empregado! Fica-se empregado do próprio negócio, não se pensa além. Ainda há uma carência desse olhar mais ousado. Eu sinto falta disso! Precisamos ter uma visão mais prática, mais objetividade. Trabalhar com objetivo e com metas. Ás vezes se perde duas reuniões para fechar um negócio com um empreendedor negro e fica-se falando do problema, porque não se fazê-las pensando como se soluciona, como se cria produtos. Porque se eu encontrei o problema ótimo, encontrei uma oportunidade de negócio! E a gente ainda tem pouco acesso a tudo, politicamente! Quantos de nós temos apoio em Brasília no Congresso, na Fiesp, quantos? Nem como a grande maioria, nós conseguimos reverter para nós mesmos. Somos muito individualistas, e na hora errada. Há momentos de se juntar pra conseguir galgar novas oportunidades, para se conquistar as suas metas para o negócio, para o grupo ou pra sua comunidade. Porém em nenhum momento conseguimos nos unir. Não somos ameaça pra ninguém. E no capitalismo precisa-se ter força. Então mesmo que tenhamos conseguido coisas concretas no passado, hoje ainda não conseguimos lidar com as ferramentas necessárias e que temos que conhecer para alcançar o sucesso!
PSS - Você acredita que os conhecimentos do negro como cidadão aumentaram nessa última década?
Laudeci - Sim. Eu acho que já nos permitimos ocupar mais espaços em lugares que nós não íamos. Não mais abaixamos tanto a cabeça, estamos acreditando que é possível e que nós podemos. O acesso a empresas, acesso à informação, a questão do visual, o modo que nos vestimos, com relação ao cabelo. Tudo isso, hoje, é muito mais atitude negras, que no passado nós não nos permitíamos. Eu acredito que o negro tem crescido e rompido muitas barreiras. E no ponto de vista da cidadania é pouco, mas é muito se comparado ao passado!